segunda-feira, 16 de setembro de 2024

memento moris

No vaso as flores pendem
Quase vivas
Agoniadas, belas
Incisivas

O peixe
Em seu aquário
Como as flores
Gaiola d'água
Azul
Marés perdidas

E a vida
Que desprende do que é vivo 
E arranca o sorriso
E aleija a carne
E tira do momento aquele brilho
E apaga da fogueira o que se arde

Leva o peixe, as flores
Leva as tardes
Encarde a mesa, mofa os combinados
Permite as teias, a poeira, os maus odores
Caduca os cães
E emudece os moradores 


sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Sono sem sonhos

 Guinchavam os porcos no chiqueiro da chácara ao lado. Não eram muitos, mas algo havia no  terreno que os fizera levantar vozes e roubar-me as migalhas amealhadas de descanso que eu conseguira juntar desde as quatro e vinte da madrugada. 

A criança chorou novamente, um choro de fingimento, querendo peito, querendo mãe. Fui lá resolver. 

Das coisas que me ensinaram foi que a gente não deve deixar os outros esperando, senão pode ser que os outros percebam que não devem precisar da gente e partam para outros outros, para outras gentes. E a gente fica sem  valia, ali, tendo comido a mosca e perdido a bola para o tempo e para o vento. Por isso, sempre que chamava um filho, corria a atender. Um filho, um marido, qualquer gente.

Enfim.

A criança, depois do peito, acordou animada. Queria cantar, queria falar, queria descer as escadas e que eu fizesse panquecas para o café da manhã do domingo. O marido acordou junto da conversaria, querendo a cama e o silêncio que não teríamos nos próximos anos, até que a criança crescesse. 

Paciência.

Descemos os três. Quando meteram os olhos em nós, latiram os cães. Queriam comer também; aliás, aqueles ali comeriam qualquer coisa, em qualquer momento, sob qualquer justificativa que não precisava ser desjejum, nem janta. Parecia que a barriga lhes estava sempre vazia, sempre varada, doidos por uma tripa, uma beirola de ovo ou o que fosse que tivéssemos em casa.

Os porcos do vizinho calaram, dando lugar às galinhas. Aquela chácara era um inferno. Onde já se viu chácara em frente ao mar? Devia ter metido esse terreno pra ser alguma outra coisa: uma venda, uma quitanda, um mercadinho; alugado para uma farmácia e vivido de renda (tal estava na moda), qualquer coisa menos criar esses bichos que nos traziam apenas os cheiros, os barulhos e as baratas. Ah, as baratas... furtivas, vinham de nunca em nunca, mas quando vinham, irritavam os olhos da gente e alimentavam as nossas mentes como fantasias de infestação e pragas do Egito. 

Se o vizinho fosse religioso, decerto haveria outras pragas também. Ele mesmo já era uma praga, porque não vendia aquele terreno por nada nesse mundo e nosso sonho era poder, um dia, fazer um ajuntado das economias, começar um financiamento e fincar nossa bandeira ali, bem no meio do chiqueiro, que seria o primeiro a ser dado como exterminado. 

Os domingos de inverno eram quase quentes, só que sem o movimento do verão. Os carros, com seus falantes altos insistiram apesar da proibição da prefeitura, que não tinha olheiros e nada fiscalizava. É engraçada essa situação de escrever as leis e não fiscalizar cumprimento, como se a justiça nascesse do misto de palavras jogadas num papel e não do beliscão no bolso e no ego depois de umas multas bem dadas. Mas era assim.

Logo a outra menina acordou e a casa, já cheia de sons, juntou algo extra. Vieram uns amigos do pai também, para tocar umas modas de guitarra elétrica, num ensaio para um festival que nunca vinha, mas que estava sempre perto, sempre ali, à espera. 

A mãe juntou as mulheres no quintal. O pai largou um pouco de mão a família para ser star e a roupa que era para lavar ficou no cesto, postergando uma faxina geral até nunca mais (ora, não se cuida da casa com visitas, especialmente num domingo). Quando todos saíssem e a casa voltasse ao silêncio, talvez, tudo daria jeito. Mesmo porque não tinha muitos barulhos que a mãe gostasse mais do que o vuco vuco da máquina de lavar roupas e a mais velha ao piano. Melhor que esses barulhos, só o marulhar das ondas na madrugada fria (que ainda estava longe).

O almoço veio e foi e nada da casa aquietar. Que coisa. Logo naquele dia a mãe queria um sossego, um alívio dos combinados. Um tempo nos braços do pai, sem hora, sem campainha, sem limite.

O pessoal foi embora com o Sol e eles aproveitaram ainda para dar um alô na casa da vó, dobrando a esquina, antes de terminar o dia.

Barulho das televisões, crianças correndo e o avô já meio surdo, esforçando a garganta para ouvir melhor a própria voz. E o som dos talheres nervosos, cortando o queijo, passando a geleia, caindo no prato depois de mexer o café. Pacote completo.

Quanto bateram a cabeça no travesseiro já passara das nove.

Finalmente o sono, finalmente o silêncio. 

A mãe, depois de ter desejado um domingo tranquilo, dava o peito à pequena e sonhava com um sono sem sonhos...