terça-feira, 29 de outubro de 2024

hoje e hoje novamente

Fui engolida pela servitude mais uma vez. Passava largo das três e meia da tarde e o tempo que eu teria para sentar e escrever algumas páginas já estava encurtado inevitavelmente.
Primeiro foi o trabalho. Depois, o almoço das meninas. Depois ainda, uma mãe que, mais dia, menos dia, acabaria diagnosticada com alguma demência neurodegenerativa, posto que era disso que dava mostras com sua terrível memória de trabalho e as perguntas cada vez mais repetidas e constantes.
Estava comum na família, o Alzheimer, tendo se manifestado em quatro dos oito filhos de  vovó e, portanto, com essa possibilidade que vivia à espreita, aventávamos todos de o dia chegar em que essa filha dela, vulgo, minha mãe, também recebesse a herança.
Eu passava longos períodos pensando nisso. Jogando probabilidades. Pintando cenários. Ficava horas no futuro, aventando como seria para minhas filhas, caso eu também entrasse nessa um dia. Quis escrever-lhes um livro de memórias, enquanto eu ainda as tinha a resgatar. Do platô alto dos meus quarenta e quatro, dava para fazer muita coisa antes de começar a senescer e fenecer. Minha mãe já não tinha esse tempo. Suas memórias antigas, ainda bem guardadas, somavam-se leves e fluidas, coloridas, comendo o espaço das recentes, que andavam cada vez mais capengas, pobres e desproporcionalmente esquecíveis.
Por isso, a decisão de falarmos sobre mamãe, apesar de me assombrar, me parecia imensamente necessária. Era preciso agir, qual uma minuciosa atendente do setor de patrimônio, catalogando os passados e dando-lhes nome, justificativa e vez, enquanto ainda houvesse tempo de resgatar uma história que não me havia sido contada inteiramente e que, justamente por isso, me era tão cara e tão preciosa.
Mas não precisávamos ir em ordem cronológica. Era óbvio que nossa missão era a de escrever as pastas em ordem afetiva; ora, o coração, quando encontra uma ponta de novelo, vai puxando aquilo ali, até que esfiapa tudo e a coisa se esgota poeticamente, sem a necessidade de saber qual novelo vai primeiro: eles se escolhem mutuamente.
Ah, pois.
Uma história por dia e nosso compilado iria se tranformando numa pilha de nomes de gentes, lugares, cheiros e músicas. Uma memória de cada vez e a morte jamais nos alcançaria: finalmente descobrimos um jeito de sermos eternas...


A casa em chamas

As roupas estavam num cesto, à espera da máquina. 
Pelo chão, caixas e mais caixas de livros se revezavam, escondendo aranhas, poeira e cartões antigos que pendiam das páginas. 
A cabeça da mãe estava doendo. De exaustão, de preocupação e sonho. 
Aquela casa seria a derradeira. Aquela, sim, tinha de funcionar. Mas estava longe de dar certo.
Ontem, quando chegamos, sob um temporal imenso, descobrimos as goteiras crônicas. Algumas sobre a mesa de estudos da filha mais velha, destruindo um pouco dos materiais amadeirados com o qual ela foi construída. Que baque. Que estresse. Pegue as toalhas de um lado, enxugue de outro, mantendo sempre um pano de segurança caso a água desça pior à noite. 
O marido, meio à tempestade, subiu no telhado para remediar a fresta. Conseguiu, em parte: funcionaria bem daquele jeito mais uns dias, mas nada que fosse definitivo. Havia a necessidade de reparos maiores, mais sérios e, principalmente, mais definitivos. 
A cozinha também tinha pingueiras, disfarçadas pelo forro plástico, que tinha uma caída íngreme até a ponta da porta, onde se acumulou a água. Menos mal. Dava para sobreviver assim, com os eletrodomésticos secos, pelo menos. 
O  quarto do casal estava molhado também, mas não era água do teto: ela escorria da fresta da soleira da porta da varanda, empurrada pelos ventos que entravam encanados e sorrateiros em todos os rasgos, mesmo que microscópicos. 
A água tinha essa qualidade de encharcar em tudo que era canto, aumentando a alegria da natureza (que tinha acabado de sair de uma estação de secura extrema), mas diminuindo o conforto dos bichos que não precisavam dela o tempo todo. 
Fazer o quê. 
A água só vinha tornar mais urgente as coisas e tirar o foco das outras que estavam incomodando antes: as sujeiras, as coisas empilhadas, os excessos de livros velhos, de bolsas, de penduricalhos e bibelôs que vieram da casa antiga.
A mãe não tinha onde guardar nada e começou a se desfazer das suas coisas, sem muita vontade ou diligência. 
Logo ela, que guardava tudo. Que tinha cartas e mais cartas desde a infância. Que carregava um exemplar de jornal do Estado de Minas da época da segunda guerra mundial. 
Para onde iriam essas coisas? O que sobraria dela, caso se desfizesse dessas coisas? 
Teria de viver austera? Teria de viver agora? Não seria mais a somatória de seus pertences... 
O que sobraria para que ela pudesse ser, novamente, alguma coisa?