Primeiro foi o trabalho. Depois, o almoço das meninas. Depois ainda, uma mãe que, mais dia, menos dia, acabaria diagnosticada com alguma demência neurodegenerativa, posto que era disso que dava mostras com sua terrível memória de trabalho e as perguntas cada vez mais repetidas e constantes.
Estava comum na família, o Alzheimer, tendo se manifestado em quatro dos oito filhos de vovó e, portanto, com essa possibilidade que vivia à espreita, aventávamos todos de o dia chegar em que essa filha dela, vulgo, minha mãe, também recebesse a herança.
Eu passava longos períodos pensando nisso. Jogando probabilidades. Pintando cenários. Ficava horas no futuro, aventando como seria para minhas filhas, caso eu também entrasse nessa um dia. Quis escrever-lhes um livro de memórias, enquanto eu ainda as tinha a resgatar. Do platô alto dos meus quarenta e quatro, dava para fazer muita coisa antes de começar a senescer e fenecer. Minha mãe já não tinha esse tempo. Suas memórias antigas, ainda bem guardadas, somavam-se leves e fluidas, coloridas, comendo o espaço das recentes, que andavam cada vez mais capengas, pobres e desproporcionalmente esquecíveis.
Por isso, a decisão de falarmos sobre mamãe, apesar de me assombrar, me parecia imensamente necessária. Era preciso agir, qual uma minuciosa atendente do setor de patrimônio, catalogando os passados e dando-lhes nome, justificativa e vez, enquanto ainda houvesse tempo de resgatar uma história que não me havia sido contada inteiramente e que, justamente por isso, me era tão cara e tão preciosa.
Mas não precisávamos ir em ordem cronológica. Era óbvio que nossa missão era a de escrever as pastas em ordem afetiva; ora, o coração, quando encontra uma ponta de novelo, vai puxando aquilo ali, até que esfiapa tudo e a coisa se esgota poeticamente, sem a necessidade de saber qual novelo vai primeiro: eles se escolhem mutuamente.
Ah, pois.
Uma história por dia e nosso compilado iria se tranformando numa pilha de nomes de gentes, lugares, cheiros e músicas. Uma memória de cada vez e a morte jamais nos alcançaria: finalmente descobrimos um jeito de sermos eternas...