Pelo chão, caixas e mais caixas de livros se revezavam, escondendo aranhas, poeira e cartões antigos que pendiam das páginas.
A cabeça da mãe estava doendo. De exaustão, de preocupação e sonho.
Aquela casa seria a derradeira. Aquela, sim, tinha de funcionar. Mas estava longe de dar certo.
Ontem, quando chegamos, sob um temporal imenso, descobrimos as goteiras crônicas. Algumas sobre a mesa de estudos da filha mais velha, destruindo um pouco dos materiais amadeirados com o qual ela foi construída. Que baque. Que estresse. Pegue as toalhas de um lado, enxugue de outro, mantendo sempre um pano de segurança caso a água desça pior à noite.
O marido, meio à tempestade, subiu no telhado para remediar a fresta. Conseguiu, em parte: funcionaria bem daquele jeito mais uns dias, mas nada que fosse definitivo. Havia a necessidade de reparos maiores, mais sérios e, principalmente, mais definitivos.
A cozinha também tinha pingueiras, disfarçadas pelo forro plástico, que tinha uma caída íngreme até a ponta da porta, onde se acumulou a água. Menos mal. Dava para sobreviver assim, com os eletrodomésticos secos, pelo menos.
O quarto do casal estava molhado também, mas não era água do teto: ela escorria da fresta da soleira da porta da varanda, empurrada pelos ventos que entravam encanados e sorrateiros em todos os rasgos, mesmo que microscópicos.
A água tinha essa qualidade de encharcar em tudo que era canto, aumentando a alegria da natureza (que tinha acabado de sair de uma estação de secura extrema), mas diminuindo o conforto dos bichos que não precisavam dela o tempo todo.
Fazer o quê.
A água só vinha tornar mais urgente as coisas e tirar o foco das outras que estavam incomodando antes: as sujeiras, as coisas empilhadas, os excessos de livros velhos, de bolsas, de penduricalhos e bibelôs que vieram da casa antiga.
A mãe não tinha onde guardar nada e começou a se desfazer das suas coisas, sem muita vontade ou diligência.
Logo ela, que guardava tudo. Que tinha cartas e mais cartas desde a infância. Que carregava um exemplar de jornal do Estado de Minas da época da segunda guerra mundial.
Para onde iriam essas coisas? O que sobraria dela, caso se desfizesse dessas coisas?
Teria de viver austera? Teria de viver agora? Não seria mais a somatória de seus pertences...
O que sobraria para que ela pudesse ser, novamente, alguma coisa?
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