O TDAH não era algo que nos assustava. Ora, em pleno 2024, o TDAH não era algo que assustava ninguém. Pelo contrário: ondas e ondas de pessoas apresentavam o transtorno, como se fossem infinitas folhas de testes e laudos, se revezando nos consultórios das neuropsicólogas e psiquiatras, dando nome às aflições rotineiras de alunos, crianças e adultos desconcentrados. Ninguém falava em outra coisa. Ter déficit de atenção era o novo normal. Foi por causa dele que eu não concluí as faculdades que comecei. Foi por causa dele que me dei mal no teste de direção. Foi por conta dele que meu filho sempre jogou futebol na sala de televisão, assistindo tevê e ouvindo podcast de gamer ao mesmo tempo. O TDAH arruinou meus relacionamentos, rezava um. O TDAH me impediu de alcançar meus sonhos, jurava outro. O TDAH desequilibrou minha vida amorosa, explicou a moça que não conseguia um namorado.
É. Esse TDAH devia mesmo ter muitas culpas no cartório. E nós, que estamos na era das culpas e justificativas, caímos direitinho nas garras de tamanho vilão da mente. Vilão? Bem... não era para tanto. Se fôssemos parar para pensar, não era para nada disso.
O déficit de atenção, somado às necessidades e solicitações da sociedade onde vivemos é massacrante mesmo. Mas é comum. E quando é comum, significa que, já que é compartilhado por tanta gente, há saídas pensadas em massa. A gente dá conta dele, farmacologicamente, comportamentalmente, societalmente. Enfim. Um TDAH sozinho geralmente não mata ninguém.
Ok.
Mas nosso medo era outro.
Nosso medo, nosso pavor, era que a dona Lulu e o seu Oswaldo tivessem distribuído genes que, misturados, garantissem outro tipo de doença aos filhos. Nosso pesadelo era o cavalo de Tróia genético que estava se desenhando nos oito herdeiros desses genes, quatro dos quais já haviam caído. E a surpresa que viria da barriga do cavalo não era um TDAH. Era o Alzheimer. Um mal de fato. Desproporcionalmente pior. Desproporcionalmente destrutivo. Desproporcionalmente irremediável.
E mamãe estava no alvo. E o alvo estava em campo aberto.
E o fato de ela esquecer onde colocava o celular virou a principal suspeita. E não era só o celular. Era a chave do carro. Era a cebola que ela tinha acabado de descascar. Era o assunto do último telefonema, ou da série que tinha visto dias antes.
Fomos à neurologista. Fizemos todos os exames de imagem. Nada. Aquela cabecinha estava intacta. Ufa. Fomos à psiquiatra. Fizemos mais alguns testes. Nada. Fomos à neuropsicóloga. Fizemos um batalhão de testes neurológicos, de inteligência, de cognição e tal e coisa. Vinte e três páginas de laudo, para chegar à última: TDAH ululante. Ansiedade e impulsividade extremas.
"Já que a sua família tem esse histórico demencial, a última fronteira é o exame de detecção de proteína beta amilóide. Caso haja qualquer Alzheimer, ele vai aparecer lá. Mas também será normal caso o teste dê positivo, dada a sua idade, dona Suzana. E, dando positivo, mesmo que seja Alzheimer, não há nada específico que se possa fazer".
Pois bem.
Nada específico que se possa fazer, disse a neuro.
Dane-se esse exame, então, dissemos nós. Não queremos mais provas contrárias, já que as evidências todas apontam para outro lugar.
Mamãe nunca soube onde colocava as chaves mesmo. Não ia aprender depois dos setenta. Surpreendente seria que começasse a não se esquecer das coisas e se tornasse uma memorista exímia, coisa que nunca fora.
Vamos, um dia de cada vez, tentando subterfúgios alternativos para mantermos as chaves à vista e o celular no volume alto para ser encontrado quando sumir. O resto dos esquecimentos, quando vierem, serão ignorados.
Estamos, aos trancos e barrancos, aprendendo que a paciência e o respeito com o tempo do outro é mais importante que saber se o laudo é positivo ou negativo. A empatia não fala sobre colocar em perspectiva pessoas doentes ou sãs. Fala sobre amor incondicional à humanidade. Fala sobre não tratar ninguém com violência ou submissão.
Procurar as chaves é dever de todos. Ouvir as mesmas estórias, sem explodir, é uma competência que pode (e deve) ser desenvolvida, especialmente pelos filhos e cônjuges de pessoas que têm dificuldades em organizar suas memórias ou processos.
Na correria do salve-se quem puder, muita gente acaba matando o outro afogado, por bater nele com a boia, na tentativa de enfiá-la forçosamente cabeça a dentro. Papai é do time que bate. Mamãe, do time que apanha. Talvez seja isso que os tenha unido no começo. Justamente talvez seja isso que os afaste no final...
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