Já passava das 22h quando saíram para desejar feliz ano novo aos vizinhos que comemoravam quase silenciosos na casa ao lado. Havia pouca gente pela rua naquele canto onde moravam: a maioria das pessoas só ia para lá nos fins de semana ou feriados, e tendo a praia como destino final, de modo que, ao entardecer, já não se via quase nada, mesmo aos sábados.
O espetáculo pirotécnico foi digno de cidade do interior, com alguns rounds coloridos e largos buquês de chuva de prata. Como a bateria de foguetes estava instalada ao lado da igreja matriz, no coração do bairro, e a casa onde moravam ficava na outra ponta, ver os fogos foi como contemplar uma festa da qual não se fazia parte, mas se aproveitava a rebarba mesmo assim. Ela fez algumas fotografias desajeitadas, tentando enquadrar as vivas luzes na lente de seu celular, o que, definitivamente, acabou não fazendo jus à realidade.
Como era a vida, pensou.
Dormiram logo, talvez quinze minutos após a queima. Depois de deitarem as crianças e de se encontrarem sob os lençóis (dizia-se que a maneira como se começava o ano ditaria os demais dias, então não era bom arriscar).
Quis sonhar com um ano novo. Um onde eram possíveis as coisas. Onde ela poderia recomeçar, testar novas habilidades e desenvolver as antigas. Um ano mais fácil, mais abundante e cheio de recompensas e prazeres frívolos, mesmo que ingênuos.
Levantou cedo no primeiro dia do ano, como fazia sempre. Desceu. Deu uma olhada na pia da cozinha; estava repleta das louças da noite anterior, que ela não lavara pois estava ocupada pintando as casas de passarinho (que seu companheiro havia construído com cortes de madeira prestes a irem para o lixo) antes da meia-noite.
Lavou as louças, levou o lixo, passou a vassoura no chão, fez o café, foi à padaria.
Nada havia mudado. Talvez a magia do ano novo começasse depois de algum feitiço, de alguma mandinga. Ou talvez essa coisa de início de ano fosse apenas um engodo para manter as pessoas desacordadas do fato de que elas mesmas sempre têm o poder de mudar suas vidas sem precisar de datas especiais ou rituais específicos.
Sorriu cansada com essa conclusão. Deveria ser bom receber a mudança sem ter de realizar a mudança, pensou.
Mas isso não existe.
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