sábado, 30 de novembro de 2024

antes de dezembro chegar

As abelhas subiam das flores cheirosas e zumbiam baixinho, como se fossem motocicletas passando na rodovia distante.
Eram os últimos dias de primavera e estava comum que os termômetros ultrapassassem já os trinta graus sempre quando o sol estava a pino.
O calor independia da falta de nuvens; era constante, irritante até, e fazia as roupas ficarem grudentas por conta da pele suada e dos cabelos ensopados que faziam desenhos nas testas das crianças. 
Às vezes, quando o vento vinha, era como um abraço morno, quase sufocante, que tirava da gente a esperança da fresca e nos fazia desejar o inverno e suas friacas de quebrar os ossos. 
Faltariam ainda uns quatro meses para que a sombra da garagem esfriasse nos fins de tarde: o verão estava prestes a dar as caras. Sem surpresas, sem distrações, sem piedade.


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

capitulo três - depois do susto, o laudo

 O TDAH não era algo que nos assustava. Ora, em pleno 2024, o TDAH não era algo que assustava ninguém. Pelo contrário: ondas e ondas de pessoas apresentavam o transtorno, como se fossem infinitas folhas de testes e laudos, se revezando nos consultórios das neuropsicólogas e psiquiatras, dando nome às aflições rotineiras de alunos, crianças e adultos desconcentrados. Ninguém falava em outra coisa. Ter déficit de atenção era o novo normal. Foi por causa dele que eu não concluí as faculdades que comecei. Foi por causa dele que me dei mal no teste de direção. Foi por conta dele que meu filho sempre jogou futebol na sala de televisão, assistindo tevê e ouvindo podcast de gamer ao mesmo tempo. O TDAH arruinou meus relacionamentos, rezava um. O TDAH me impediu de alcançar meus sonhos, jurava outro. O TDAH desequilibrou minha vida amorosa, explicou a moça que não conseguia um namorado.

É. Esse TDAH devia mesmo ter muitas culpas no cartório. E nós, que estamos na era das culpas e justificativas, caímos direitinho nas garras de tamanho vilão da mente. Vilão? Bem... não era para tanto. Se fôssemos parar para pensar, não era para nada disso.

O déficit de atenção, somado às necessidades e solicitações da sociedade onde vivemos é massacrante mesmo. Mas é comum. E quando é comum, significa que, já que é compartilhado por tanta gente, há saídas pensadas em massa. A gente dá conta dele, farmacologicamente, comportamentalmente, societalmente. Enfim. Um TDAH sozinho geralmente não mata ninguém. 

Ok.

Mas nosso medo era outro.

Nosso medo, nosso pavor, era que a dona Lulu e o seu Oswaldo tivessem distribuído genes que, misturados, garantissem outro tipo de doença aos filhos. Nosso pesadelo era o cavalo de Tróia genético que estava se desenhando nos oito herdeiros desses genes, quatro dos quais já haviam caído. E a surpresa que viria da barriga do cavalo não era um TDAH. Era o Alzheimer. Um mal de fato. Desproporcionalmente pior. Desproporcionalmente destrutivo. Desproporcionalmente irremediável.

E mamãe estava no alvo. E o alvo estava em campo aberto.

E o fato de ela esquecer onde colocava o celular virou a principal suspeita. E não era só o celular. Era a chave do carro. Era a cebola que ela tinha acabado de descascar. Era o assunto do último telefonema, ou da série que tinha visto dias antes.

Fomos à neurologista. Fizemos todos os exames de imagem. Nada. Aquela cabecinha estava intacta. Ufa. Fomos à psiquiatra. Fizemos mais alguns testes. Nada. Fomos à neuropsicóloga. Fizemos um batalhão de testes neurológicos, de inteligência, de cognição e tal e coisa. Vinte e três páginas de laudo, para chegar à última: TDAH ululante. Ansiedade e impulsividade extremas.

"Já que a sua família tem esse histórico demencial, a última fronteira é o exame de detecção de proteína beta amilóide. Caso haja qualquer Alzheimer, ele vai aparecer lá. Mas também será normal caso o teste dê positivo, dada a sua idade, dona Suzana. E, dando positivo, mesmo que seja Alzheimer, não há nada específico que se possa fazer". 

Pois bem. 

Nada específico que se possa fazer, disse a neuro. 

Dane-se esse exame, então, dissemos nós. Não queremos mais provas contrárias, já que as evidências todas apontam para outro lugar. 

Mamãe nunca soube onde colocava as chaves mesmo. Não ia aprender depois dos setenta. Surpreendente seria que começasse a não se esquecer das coisas e se tornasse uma memorista exímia, coisa que nunca fora. 

Vamos, um dia de cada vez, tentando subterfúgios alternativos para mantermos as chaves à vista e o celular no volume alto para ser encontrado quando sumir. O resto dos esquecimentos, quando vierem, serão ignorados. 

Estamos, aos trancos e barrancos, aprendendo que a paciência e o respeito com o tempo do outro é mais importante que saber se o laudo é positivo ou negativo. A empatia não fala sobre colocar em perspectiva pessoas doentes ou sãs. Fala sobre amor incondicional à humanidade. Fala sobre não tratar ninguém com violência ou submissão. 

Procurar as chaves é dever de todos. Ouvir as mesmas estórias, sem explodir, é uma competência que pode (e deve) ser desenvolvida, especialmente pelos filhos e cônjuges de pessoas que têm dificuldades em organizar suas memórias ou processos. 

Na correria do salve-se quem puder, muita gente acaba matando o outro afogado, por bater nele com a boia, na tentativa de enfiá-la forçosamente cabeça a dentro. Papai é do time que bate. Mamãe, do time que apanha. Talvez seja isso que os  tenha unido no começo. Justamente talvez seja isso que os afaste no final...


terça-feira, 29 de outubro de 2024

hoje e hoje novamente

Fui engolida pela servitude mais uma vez. Passava largo das três e meia da tarde e o tempo que eu teria para sentar e escrever algumas páginas já estava encurtado inevitavelmente.
Primeiro foi o trabalho. Depois, o almoço das meninas. Depois ainda, uma mãe que, mais dia, menos dia, acabaria diagnosticada com alguma demência neurodegenerativa, posto que era disso que dava mostras com sua terrível memória de trabalho e as perguntas cada vez mais repetidas e constantes.
Estava comum na família, o Alzheimer, tendo se manifestado em quatro dos oito filhos de  vovó e, portanto, com essa possibilidade que vivia à espreita, aventávamos todos de o dia chegar em que essa filha dela, vulgo, minha mãe, também recebesse a herança.
Eu passava longos períodos pensando nisso. Jogando probabilidades. Pintando cenários. Ficava horas no futuro, aventando como seria para minhas filhas, caso eu também entrasse nessa um dia. Quis escrever-lhes um livro de memórias, enquanto eu ainda as tinha a resgatar. Do platô alto dos meus quarenta e quatro, dava para fazer muita coisa antes de começar a senescer e fenecer. Minha mãe já não tinha esse tempo. Suas memórias antigas, ainda bem guardadas, somavam-se leves e fluidas, coloridas, comendo o espaço das recentes, que andavam cada vez mais capengas, pobres e desproporcionalmente esquecíveis.
Por isso, a decisão de falarmos sobre mamãe, apesar de me assombrar, me parecia imensamente necessária. Era preciso agir, qual uma minuciosa atendente do setor de patrimônio, catalogando os passados e dando-lhes nome, justificativa e vez, enquanto ainda houvesse tempo de resgatar uma história que não me havia sido contada inteiramente e que, justamente por isso, me era tão cara e tão preciosa.
Mas não precisávamos ir em ordem cronológica. Era óbvio que nossa missão era a de escrever as pastas em ordem afetiva; ora, o coração, quando encontra uma ponta de novelo, vai puxando aquilo ali, até que esfiapa tudo e a coisa se esgota poeticamente, sem a necessidade de saber qual novelo vai primeiro: eles se escolhem mutuamente.
Ah, pois.
Uma história por dia e nosso compilado iria se tranformando numa pilha de nomes de gentes, lugares, cheiros e músicas. Uma memória de cada vez e a morte jamais nos alcançaria: finalmente descobrimos um jeito de sermos eternas...


A casa em chamas

As roupas estavam num cesto, à espera da máquina. 
Pelo chão, caixas e mais caixas de livros se revezavam, escondendo aranhas, poeira e cartões antigos que pendiam das páginas. 
A cabeça da mãe estava doendo. De exaustão, de preocupação e sonho. 
Aquela casa seria a derradeira. Aquela, sim, tinha de funcionar. Mas estava longe de dar certo.
Ontem, quando chegamos, sob um temporal imenso, descobrimos as goteiras crônicas. Algumas sobre a mesa de estudos da filha mais velha, destruindo um pouco dos materiais amadeirados com o qual ela foi construída. Que baque. Que estresse. Pegue as toalhas de um lado, enxugue de outro, mantendo sempre um pano de segurança caso a água desça pior à noite. 
O marido, meio à tempestade, subiu no telhado para remediar a fresta. Conseguiu, em parte: funcionaria bem daquele jeito mais uns dias, mas nada que fosse definitivo. Havia a necessidade de reparos maiores, mais sérios e, principalmente, mais definitivos. 
A cozinha também tinha pingueiras, disfarçadas pelo forro plástico, que tinha uma caída íngreme até a ponta da porta, onde se acumulou a água. Menos mal. Dava para sobreviver assim, com os eletrodomésticos secos, pelo menos. 
O  quarto do casal estava molhado também, mas não era água do teto: ela escorria da fresta da soleira da porta da varanda, empurrada pelos ventos que entravam encanados e sorrateiros em todos os rasgos, mesmo que microscópicos. 
A água tinha essa qualidade de encharcar em tudo que era canto, aumentando a alegria da natureza (que tinha acabado de sair de uma estação de secura extrema), mas diminuindo o conforto dos bichos que não precisavam dela o tempo todo. 
Fazer o quê. 
A água só vinha tornar mais urgente as coisas e tirar o foco das outras que estavam incomodando antes: as sujeiras, as coisas empilhadas, os excessos de livros velhos, de bolsas, de penduricalhos e bibelôs que vieram da casa antiga.
A mãe não tinha onde guardar nada e começou a se desfazer das suas coisas, sem muita vontade ou diligência. 
Logo ela, que guardava tudo. Que tinha cartas e mais cartas desde a infância. Que carregava um exemplar de jornal do Estado de Minas da época da segunda guerra mundial. 
Para onde iriam essas coisas? O que sobraria dela, caso se desfizesse dessas coisas? 
Teria de viver austera? Teria de viver agora? Não seria mais a somatória de seus pertences... 
O que sobraria para que ela pudesse ser, novamente, alguma coisa?

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

memento moris

No vaso as flores pendem
Quase vivas
Agoniadas, belas
Incisivas

O peixe
Em seu aquário
Como as flores
Gaiola d'água
Azul
Marés perdidas

E a vida
Que desprende do que é vivo 
E arranca o sorriso
E aleija a carne
E tira do momento aquele brilho
E apaga da fogueira o que se arde

Leva o peixe, as flores
Leva as tardes
Encarde a mesa, mofa os combinados
Permite as teias, a poeira, os maus odores
Caduca os cães
E emudece os moradores 


sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Sono sem sonhos

 Guinchavam os porcos no chiqueiro da chácara ao lado. Não eram muitos, mas algo havia no  terreno que os fizera levantar vozes e roubar-me as migalhas amealhadas de descanso que eu conseguira juntar desde as quatro e vinte da madrugada. 

A criança chorou novamente, um choro de fingimento, querendo peito, querendo mãe. Fui lá resolver. 

Das coisas que me ensinaram foi que a gente não deve deixar os outros esperando, senão pode ser que os outros percebam que não devem precisar da gente e partam para outros outros, para outras gentes. E a gente fica sem  valia, ali, tendo comido a mosca e perdido a bola para o tempo e para o vento. Por isso, sempre que chamava um filho, corria a atender. Um filho, um marido, qualquer gente.

Enfim.

A criança, depois do peito, acordou animada. Queria cantar, queria falar, queria descer as escadas e que eu fizesse panquecas para o café da manhã do domingo. O marido acordou junto da conversaria, querendo a cama e o silêncio que não teríamos nos próximos anos, até que a criança crescesse. 

Paciência.

Descemos os três. Quando meteram os olhos em nós, latiram os cães. Queriam comer também; aliás, aqueles ali comeriam qualquer coisa, em qualquer momento, sob qualquer justificativa que não precisava ser desjejum, nem janta. Parecia que a barriga lhes estava sempre vazia, sempre varada, doidos por uma tripa, uma beirola de ovo ou o que fosse que tivéssemos em casa.

Os porcos do vizinho calaram, dando lugar às galinhas. Aquela chácara era um inferno. Onde já se viu chácara em frente ao mar? Devia ter metido esse terreno pra ser alguma outra coisa: uma venda, uma quitanda, um mercadinho; alugado para uma farmácia e vivido de renda (tal estava na moda), qualquer coisa menos criar esses bichos que nos traziam apenas os cheiros, os barulhos e as baratas. Ah, as baratas... furtivas, vinham de nunca em nunca, mas quando vinham, irritavam os olhos da gente e alimentavam as nossas mentes como fantasias de infestação e pragas do Egito. 

Se o vizinho fosse religioso, decerto haveria outras pragas também. Ele mesmo já era uma praga, porque não vendia aquele terreno por nada nesse mundo e nosso sonho era poder, um dia, fazer um ajuntado das economias, começar um financiamento e fincar nossa bandeira ali, bem no meio do chiqueiro, que seria o primeiro a ser dado como exterminado. 

Os domingos de inverno eram quase quentes, só que sem o movimento do verão. Os carros, com seus falantes altos insistiram apesar da proibição da prefeitura, que não tinha olheiros e nada fiscalizava. É engraçada essa situação de escrever as leis e não fiscalizar cumprimento, como se a justiça nascesse do misto de palavras jogadas num papel e não do beliscão no bolso e no ego depois de umas multas bem dadas. Mas era assim.

Logo a outra menina acordou e a casa, já cheia de sons, juntou algo extra. Vieram uns amigos do pai também, para tocar umas modas de guitarra elétrica, num ensaio para um festival que nunca vinha, mas que estava sempre perto, sempre ali, à espera. 

A mãe juntou as mulheres no quintal. O pai largou um pouco de mão a família para ser star e a roupa que era para lavar ficou no cesto, postergando uma faxina geral até nunca mais (ora, não se cuida da casa com visitas, especialmente num domingo). Quando todos saíssem e a casa voltasse ao silêncio, talvez, tudo daria jeito. Mesmo porque não tinha muitos barulhos que a mãe gostasse mais do que o vuco vuco da máquina de lavar roupas e a mais velha ao piano. Melhor que esses barulhos, só o marulhar das ondas na madrugada fria (que ainda estava longe).

O almoço veio e foi e nada da casa aquietar. Que coisa. Logo naquele dia a mãe queria um sossego, um alívio dos combinados. Um tempo nos braços do pai, sem hora, sem campainha, sem limite.

O pessoal foi embora com o Sol e eles aproveitaram ainda para dar um alô na casa da vó, dobrando a esquina, antes de terminar o dia.

Barulho das televisões, crianças correndo e o avô já meio surdo, esforçando a garganta para ouvir melhor a própria voz. E o som dos talheres nervosos, cortando o queijo, passando a geleia, caindo no prato depois de mexer o café. Pacote completo.

Quanto bateram a cabeça no travesseiro já passara das nove.

Finalmente o sono, finalmente o silêncio. 

A mãe, depois de ter desejado um domingo tranquilo, dava o peito à pequena e sonhava com um sono sem sonhos...