sábado, 30 de novembro de 2024
antes de dezembro chegar
segunda-feira, 4 de novembro de 2024
capitulo três - depois do susto, o laudo
O TDAH não era algo que nos assustava. Ora, em pleno 2024, o TDAH não era algo que assustava ninguém. Pelo contrário: ondas e ondas de pessoas apresentavam o transtorno, como se fossem infinitas folhas de testes e laudos, se revezando nos consultórios das neuropsicólogas e psiquiatras, dando nome às aflições rotineiras de alunos, crianças e adultos desconcentrados. Ninguém falava em outra coisa. Ter déficit de atenção era o novo normal. Foi por causa dele que eu não concluí as faculdades que comecei. Foi por causa dele que me dei mal no teste de direção. Foi por conta dele que meu filho sempre jogou futebol na sala de televisão, assistindo tevê e ouvindo podcast de gamer ao mesmo tempo. O TDAH arruinou meus relacionamentos, rezava um. O TDAH me impediu de alcançar meus sonhos, jurava outro. O TDAH desequilibrou minha vida amorosa, explicou a moça que não conseguia um namorado.
É. Esse TDAH devia mesmo ter muitas culpas no cartório. E nós, que estamos na era das culpas e justificativas, caímos direitinho nas garras de tamanho vilão da mente. Vilão? Bem... não era para tanto. Se fôssemos parar para pensar, não era para nada disso.
O déficit de atenção, somado às necessidades e solicitações da sociedade onde vivemos é massacrante mesmo. Mas é comum. E quando é comum, significa que, já que é compartilhado por tanta gente, há saídas pensadas em massa. A gente dá conta dele, farmacologicamente, comportamentalmente, societalmente. Enfim. Um TDAH sozinho geralmente não mata ninguém.
Ok.
Mas nosso medo era outro.
Nosso medo, nosso pavor, era que a dona Lulu e o seu Oswaldo tivessem distribuído genes que, misturados, garantissem outro tipo de doença aos filhos. Nosso pesadelo era o cavalo de Tróia genético que estava se desenhando nos oito herdeiros desses genes, quatro dos quais já haviam caído. E a surpresa que viria da barriga do cavalo não era um TDAH. Era o Alzheimer. Um mal de fato. Desproporcionalmente pior. Desproporcionalmente destrutivo. Desproporcionalmente irremediável.
E mamãe estava no alvo. E o alvo estava em campo aberto.
E o fato de ela esquecer onde colocava o celular virou a principal suspeita. E não era só o celular. Era a chave do carro. Era a cebola que ela tinha acabado de descascar. Era o assunto do último telefonema, ou da série que tinha visto dias antes.
Fomos à neurologista. Fizemos todos os exames de imagem. Nada. Aquela cabecinha estava intacta. Ufa. Fomos à psiquiatra. Fizemos mais alguns testes. Nada. Fomos à neuropsicóloga. Fizemos um batalhão de testes neurológicos, de inteligência, de cognição e tal e coisa. Vinte e três páginas de laudo, para chegar à última: TDAH ululante. Ansiedade e impulsividade extremas.
"Já que a sua família tem esse histórico demencial, a última fronteira é o exame de detecção de proteína beta amilóide. Caso haja qualquer Alzheimer, ele vai aparecer lá. Mas também será normal caso o teste dê positivo, dada a sua idade, dona Suzana. E, dando positivo, mesmo que seja Alzheimer, não há nada específico que se possa fazer".
Pois bem.
Nada específico que se possa fazer, disse a neuro.
Dane-se esse exame, então, dissemos nós. Não queremos mais provas contrárias, já que as evidências todas apontam para outro lugar.
Mamãe nunca soube onde colocava as chaves mesmo. Não ia aprender depois dos setenta. Surpreendente seria que começasse a não se esquecer das coisas e se tornasse uma memorista exímia, coisa que nunca fora.
Vamos, um dia de cada vez, tentando subterfúgios alternativos para mantermos as chaves à vista e o celular no volume alto para ser encontrado quando sumir. O resto dos esquecimentos, quando vierem, serão ignorados.
Estamos, aos trancos e barrancos, aprendendo que a paciência e o respeito com o tempo do outro é mais importante que saber se o laudo é positivo ou negativo. A empatia não fala sobre colocar em perspectiva pessoas doentes ou sãs. Fala sobre amor incondicional à humanidade. Fala sobre não tratar ninguém com violência ou submissão.
Procurar as chaves é dever de todos. Ouvir as mesmas estórias, sem explodir, é uma competência que pode (e deve) ser desenvolvida, especialmente pelos filhos e cônjuges de pessoas que têm dificuldades em organizar suas memórias ou processos.
Na correria do salve-se quem puder, muita gente acaba matando o outro afogado, por bater nele com a boia, na tentativa de enfiá-la forçosamente cabeça a dentro. Papai é do time que bate. Mamãe, do time que apanha. Talvez seja isso que os tenha unido no começo. Justamente talvez seja isso que os afaste no final...
terça-feira, 29 de outubro de 2024
hoje e hoje novamente
A casa em chamas
segunda-feira, 16 de setembro de 2024
memento moris
sexta-feira, 13 de setembro de 2024
Sono sem sonhos
Guinchavam os porcos no chiqueiro da chácara ao lado. Não eram muitos, mas algo havia no terreno que os fizera levantar vozes e roubar-me as migalhas amealhadas de descanso que eu conseguira juntar desde as quatro e vinte da madrugada.
A criança chorou novamente, um choro de fingimento, querendo peito, querendo mãe. Fui lá resolver.
Das coisas que me ensinaram foi que a gente não deve deixar os outros esperando, senão pode ser que os outros percebam que não devem precisar da gente e partam para outros outros, para outras gentes. E a gente fica sem valia, ali, tendo comido a mosca e perdido a bola para o tempo e para o vento. Por isso, sempre que chamava um filho, corria a atender. Um filho, um marido, qualquer gente.
Enfim.
A criança, depois do peito, acordou animada. Queria cantar, queria falar, queria descer as escadas e que eu fizesse panquecas para o café da manhã do domingo. O marido acordou junto da conversaria, querendo a cama e o silêncio que não teríamos nos próximos anos, até que a criança crescesse.
Paciência.
Descemos os três. Quando meteram os olhos em nós, latiram os cães. Queriam comer também; aliás, aqueles ali comeriam qualquer coisa, em qualquer momento, sob qualquer justificativa que não precisava ser desjejum, nem janta. Parecia que a barriga lhes estava sempre vazia, sempre varada, doidos por uma tripa, uma beirola de ovo ou o que fosse que tivéssemos em casa.
Os porcos do vizinho calaram, dando lugar às galinhas. Aquela chácara era um inferno. Onde já se viu chácara em frente ao mar? Devia ter metido esse terreno pra ser alguma outra coisa: uma venda, uma quitanda, um mercadinho; alugado para uma farmácia e vivido de renda (tal estava na moda), qualquer coisa menos criar esses bichos que nos traziam apenas os cheiros, os barulhos e as baratas. Ah, as baratas... furtivas, vinham de nunca em nunca, mas quando vinham, irritavam os olhos da gente e alimentavam as nossas mentes como fantasias de infestação e pragas do Egito.
Se o vizinho fosse religioso, decerto haveria outras pragas também. Ele mesmo já era uma praga, porque não vendia aquele terreno por nada nesse mundo e nosso sonho era poder, um dia, fazer um ajuntado das economias, começar um financiamento e fincar nossa bandeira ali, bem no meio do chiqueiro, que seria o primeiro a ser dado como exterminado.
Os domingos de inverno eram quase quentes, só que sem o movimento do verão. Os carros, com seus falantes altos insistiram apesar da proibição da prefeitura, que não tinha olheiros e nada fiscalizava. É engraçada essa situação de escrever as leis e não fiscalizar cumprimento, como se a justiça nascesse do misto de palavras jogadas num papel e não do beliscão no bolso e no ego depois de umas multas bem dadas. Mas era assim.
Logo a outra menina acordou e a casa, já cheia de sons, juntou algo extra. Vieram uns amigos do pai também, para tocar umas modas de guitarra elétrica, num ensaio para um festival que nunca vinha, mas que estava sempre perto, sempre ali, à espera.
A mãe juntou as mulheres no quintal. O pai largou um pouco de mão a família para ser star e a roupa que era para lavar ficou no cesto, postergando uma faxina geral até nunca mais (ora, não se cuida da casa com visitas, especialmente num domingo). Quando todos saíssem e a casa voltasse ao silêncio, talvez, tudo daria jeito. Mesmo porque não tinha muitos barulhos que a mãe gostasse mais do que o vuco vuco da máquina de lavar roupas e a mais velha ao piano. Melhor que esses barulhos, só o marulhar das ondas na madrugada fria (que ainda estava longe).
O almoço veio e foi e nada da casa aquietar. Que coisa. Logo naquele dia a mãe queria um sossego, um alívio dos combinados. Um tempo nos braços do pai, sem hora, sem campainha, sem limite.
O pessoal foi embora com o Sol e eles aproveitaram ainda para dar um alô na casa da vó, dobrando a esquina, antes de terminar o dia.
Barulho das televisões, crianças correndo e o avô já meio surdo, esforçando a garganta para ouvir melhor a própria voz. E o som dos talheres nervosos, cortando o queijo, passando a geleia, caindo no prato depois de mexer o café. Pacote completo.
Quanto bateram a cabeça no travesseiro já passara das nove.
Finalmente o sono, finalmente o silêncio.
A mãe, depois de ter desejado um domingo tranquilo, dava o peito à pequena e sonhava com um sono sem sonhos...