quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

o oitavo dia

 Raios se faziam notar no horizonte, para dentro do mar. Já era noite, apesar de pouca, e o relógio quase anunciava as oitos horas quando decidiram que a criança parecia estar dormindo o suficiente para afastarem-se da cama e comerem alguma coisa. Antes de fecharem a porta, a mãe viu um vulto na varanda do quarto, deslizando-se rapidamente para o norte, em direção ao telhado da cozinha. Era o gato do vizinho, hábil e silencioso, quem sabe à busca de alguma lagartixa descuidada, denunciada pela luz da rua. 

Desceram e comeram. 

A mais velha voltou para o quarto primeiro. Estava convencida de que deveria fazer seu plano de estudos antes do fim das férias e, além do mais, O Médico e o Monstro lhe aguardava na cabeceira da cama, já pela metade (estava aprendendo a gostar de ler; talvez não só pela leitura em si, mas pelo prazer de multiplicar assustadoramente o vocabulário e melhorar sua oratória). Na semana anterior estava lendo Camus. Quem sabe o que viria na próxima. 

O pater familias foi ter com o trabalho mais um último encontro naquele dia; era necessário deixar tudo impressionamente afiado para a próxima labuta, que ocorreria em alguns dias. Ele era um homem de brio e não gostava quando as coisas poderiam ter saído melhores e ficavam comprometidas por conta dele.

 A mãe, de volta ao quarto após terminar a cozinha, tomou nas mãos um dos sete livros que ganhara de Natal. Era um autor japonês que não conhecia. O livro falava sobre viagem no tempo, fantasmas e tentativas de consertar as coisas. Ela ficou presa nesse último tema. A tentiva de consertar as coisas parecia uma constante na vida humana, onde as pessoas constantemente se atrapalhavam porque não estavam nunca livres de serem elas mesmas, sem determinados filtros e sem, principalmente, determinadas habilidades sociais, que poderiam ajudar muito na hora das convenções e dos combinados (que raramente saíam a contento).

Pois.

Pensou em sua vida. Em seus próprios combinados e no quanto eles não estavam dando certo (tinha essa característica de procurar o que não dava certo antes do que dava certo e amplificar-lhe a importância, como se nada que fizesse fosse bom o suficiente). Estava cansada. Exausta. Fora de forma. Comia além do que devia e seu corpo tinha dobras demais. 

Ela sabia o que deveria fazer para acertar quase tudo. Conhecia os lugares aonde deveria ir. Entendia a extensão de não se programar e, especialmente, reconhecia a mazela de deixar para começar amanhã (esse lugar imaginário que nunca chega). 

Sentia-se cansada e pensava o quanto seria agradável se, ao menos, tivesse uma ajuda inicial, um empurrão amigo que lhe acompanhasse no começo da jornada. Queria voltar a gostar de si por completo, a bater palmas para si e para seus feitos, mas ficava na espera de que alguém viesse lhe reensinar a mecânica das palmas, porque, temia, tinha deixado esse conhecimento em algum lugar lá atrás, dentro de uma gaveta, num armário que já não era visitado há anos.

Um dia de cada vez, pensava. E começou a fazer uma lista mental na  calada da noite. 

Enquanto elencava sonhos, a porta se abriu e ela escutou passos. Em um instante, sentiu roçar-lhe a pele o joelho de seu companheiro, que subia à cama. Logo depois, vieram os dedos e a palma da mão, grande, massiva, lhe envolvendo a cintura com a delicadeza de quem está pedindo algo com amor. Ela sabia exatamente o que ele vinha colher e, de boníssimo grado, deu-lhe tudo. Gostava de lhe entregar as pérolas, as delicadezas que tinha e que guardava só e unicamente para ele. Eram cúmplices. Namorados. Só os dois existiam naquele quarto escuro, onde entrava um pálido feixe da luz do sol, que rebatera na lua antes de chegar a iluminar os cabelos dourados dele, sobre ela.

Tudo estava como deveria ser.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

o primeiro dia

2025 chegara. Ela vira os fogos da beira da praia, mesmo sem pular as sete ondas. Em vez disso, fechou bem os olhos e desejou coisas. Imaginou que seria excelente se tivesse mais disciplina. Se pudesse fazer mais dinheiro trabalhando menos e, em especial, se conseguisse manter a casa limpa, apesar de todos os desafios que envolviam esse desejo.
Já passava das 22h quando saíram para desejar feliz ano novo aos vizinhos que comemoravam quase silenciosos na casa ao lado. Havia pouca gente pela rua naquele canto onde moravam: a maioria das pessoas só ia para lá nos fins de semana ou feriados, e tendo a praia como destino final, de modo que, ao entardecer, já não se via quase nada, mesmo aos sábados.

O espetáculo pirotécnico foi digno de cidade do interior, com alguns rounds coloridos e largos buquês de chuva de prata. Como a bateria de foguetes estava instalada ao lado da igreja matriz, no coração do bairro, e a casa onde moravam ficava na outra ponta, ver os fogos foi como contemplar uma festa da qual não se fazia parte, mas se aproveitava a rebarba mesmo assim. Ela fez algumas fotografias desajeitadas, tentando enquadrar as vivas luzes na lente de seu celular, o que, definitivamente, acabou não fazendo jus à realidade. 
Como era a vida, pensou.
Dormiram logo, talvez quinze minutos após a queima. Depois de deitarem as crianças e de se encontrarem sob os lençóis (dizia-se que a maneira como se começava o ano ditaria os demais dias, então não era bom arriscar).
Quis sonhar com um ano novo. Um onde eram possíveis as coisas. Onde ela poderia recomeçar, testar novas habilidades e desenvolver as antigas. Um ano mais fácil, mais abundante e cheio de recompensas e prazeres frívolos, mesmo que ingênuos. 

Levantou cedo no primeiro dia do ano, como fazia sempre. Desceu. Deu uma olhada na pia da cozinha; estava repleta das louças da noite anterior, que ela não lavara pois estava ocupada pintando as casas de passarinho (que seu companheiro havia construído com cortes de madeira prestes a irem para o lixo) antes da meia-noite.

Lavou as louças, levou o lixo, passou a vassoura no chão, fez o café, foi à padaria.

Nada havia mudado. Talvez a magia do ano novo começasse depois de algum feitiço, de alguma mandinga. Ou talvez essa coisa de início de ano fosse apenas um engodo para manter as pessoas desacordadas do fato de que elas mesmas sempre têm o poder de mudar suas vidas sem precisar de datas especiais ou rituais específicos.

Sorriu cansada com essa conclusão. Deveria ser bom receber a mudança sem ter de realizar a mudança, pensou. 
Mas isso não existe. 

sábado, 30 de novembro de 2024

antes de dezembro chegar

As abelhas subiam das flores cheirosas e zumbiam baixinho, como se fossem motocicletas passando na rodovia distante.
Eram os últimos dias de primavera e estava comum que os termômetros ultrapassassem já os trinta graus sempre quando o sol estava a pino.
O calor independia da falta de nuvens; era constante, irritante até, e fazia as roupas ficarem grudentas por conta da pele suada e dos cabelos ensopados que faziam desenhos nas testas das crianças. 
Às vezes, quando o vento vinha, era como um abraço morno, quase sufocante, que tirava da gente a esperança da fresca e nos fazia desejar o inverno e suas friacas de quebrar os ossos. 
Faltariam ainda uns quatro meses para que a sombra da garagem esfriasse nos fins de tarde: o verão estava prestes a dar as caras. Sem surpresas, sem distrações, sem piedade.


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

capitulo três - depois do susto, o laudo

 O TDAH não era algo que nos assustava. Ora, em pleno 2024, o TDAH não era algo que assustava ninguém. Pelo contrário: ondas e ondas de pessoas apresentavam o transtorno, como se fossem infinitas folhas de testes e laudos, se revezando nos consultórios das neuropsicólogas e psiquiatras, dando nome às aflições rotineiras de alunos, crianças e adultos desconcentrados. Ninguém falava em outra coisa. Ter déficit de atenção era o novo normal. Foi por causa dele que eu não concluí as faculdades que comecei. Foi por causa dele que me dei mal no teste de direção. Foi por conta dele que meu filho sempre jogou futebol na sala de televisão, assistindo tevê e ouvindo podcast de gamer ao mesmo tempo. O TDAH arruinou meus relacionamentos, rezava um. O TDAH me impediu de alcançar meus sonhos, jurava outro. O TDAH desequilibrou minha vida amorosa, explicou a moça que não conseguia um namorado.

É. Esse TDAH devia mesmo ter muitas culpas no cartório. E nós, que estamos na era das culpas e justificativas, caímos direitinho nas garras de tamanho vilão da mente. Vilão? Bem... não era para tanto. Se fôssemos parar para pensar, não era para nada disso.

O déficit de atenção, somado às necessidades e solicitações da sociedade onde vivemos é massacrante mesmo. Mas é comum. E quando é comum, significa que, já que é compartilhado por tanta gente, há saídas pensadas em massa. A gente dá conta dele, farmacologicamente, comportamentalmente, societalmente. Enfim. Um TDAH sozinho geralmente não mata ninguém. 

Ok.

Mas nosso medo era outro.

Nosso medo, nosso pavor, era que a dona Lulu e o seu Oswaldo tivessem distribuído genes que, misturados, garantissem outro tipo de doença aos filhos. Nosso pesadelo era o cavalo de Tróia genético que estava se desenhando nos oito herdeiros desses genes, quatro dos quais já haviam caído. E a surpresa que viria da barriga do cavalo não era um TDAH. Era o Alzheimer. Um mal de fato. Desproporcionalmente pior. Desproporcionalmente destrutivo. Desproporcionalmente irremediável.

E mamãe estava no alvo. E o alvo estava em campo aberto.

E o fato de ela esquecer onde colocava o celular virou a principal suspeita. E não era só o celular. Era a chave do carro. Era a cebola que ela tinha acabado de descascar. Era o assunto do último telefonema, ou da série que tinha visto dias antes.

Fomos à neurologista. Fizemos todos os exames de imagem. Nada. Aquela cabecinha estava intacta. Ufa. Fomos à psiquiatra. Fizemos mais alguns testes. Nada. Fomos à neuropsicóloga. Fizemos um batalhão de testes neurológicos, de inteligência, de cognição e tal e coisa. Vinte e três páginas de laudo, para chegar à última: TDAH ululante. Ansiedade e impulsividade extremas.

"Já que a sua família tem esse histórico demencial, a última fronteira é o exame de detecção de proteína beta amilóide. Caso haja qualquer Alzheimer, ele vai aparecer lá. Mas também será normal caso o teste dê positivo, dada a sua idade, dona Suzana. E, dando positivo, mesmo que seja Alzheimer, não há nada específico que se possa fazer". 

Pois bem. 

Nada específico que se possa fazer, disse a neuro. 

Dane-se esse exame, então, dissemos nós. Não queremos mais provas contrárias, já que as evidências todas apontam para outro lugar. 

Mamãe nunca soube onde colocava as chaves mesmo. Não ia aprender depois dos setenta. Surpreendente seria que começasse a não se esquecer das coisas e se tornasse uma memorista exímia, coisa que nunca fora. 

Vamos, um dia de cada vez, tentando subterfúgios alternativos para mantermos as chaves à vista e o celular no volume alto para ser encontrado quando sumir. O resto dos esquecimentos, quando vierem, serão ignorados. 

Estamos, aos trancos e barrancos, aprendendo que a paciência e o respeito com o tempo do outro é mais importante que saber se o laudo é positivo ou negativo. A empatia não fala sobre colocar em perspectiva pessoas doentes ou sãs. Fala sobre amor incondicional à humanidade. Fala sobre não tratar ninguém com violência ou submissão. 

Procurar as chaves é dever de todos. Ouvir as mesmas estórias, sem explodir, é uma competência que pode (e deve) ser desenvolvida, especialmente pelos filhos e cônjuges de pessoas que têm dificuldades em organizar suas memórias ou processos. 

Na correria do salve-se quem puder, muita gente acaba matando o outro afogado, por bater nele com a boia, na tentativa de enfiá-la forçosamente cabeça a dentro. Papai é do time que bate. Mamãe, do time que apanha. Talvez seja isso que os  tenha unido no começo. Justamente talvez seja isso que os afaste no final...


terça-feira, 29 de outubro de 2024

hoje e hoje novamente

Fui engolida pela servitude mais uma vez. Passava largo das três e meia da tarde e o tempo que eu teria para sentar e escrever algumas páginas já estava encurtado inevitavelmente.
Primeiro foi o trabalho. Depois, o almoço das meninas. Depois ainda, uma mãe que, mais dia, menos dia, acabaria diagnosticada com alguma demência neurodegenerativa, posto que era disso que dava mostras com sua terrível memória de trabalho e as perguntas cada vez mais repetidas e constantes.
Estava comum na família, o Alzheimer, tendo se manifestado em quatro dos oito filhos de  vovó e, portanto, com essa possibilidade que vivia à espreita, aventávamos todos de o dia chegar em que essa filha dela, vulgo, minha mãe, também recebesse a herança.
Eu passava longos períodos pensando nisso. Jogando probabilidades. Pintando cenários. Ficava horas no futuro, aventando como seria para minhas filhas, caso eu também entrasse nessa um dia. Quis escrever-lhes um livro de memórias, enquanto eu ainda as tinha a resgatar. Do platô alto dos meus quarenta e quatro, dava para fazer muita coisa antes de começar a senescer e fenecer. Minha mãe já não tinha esse tempo. Suas memórias antigas, ainda bem guardadas, somavam-se leves e fluidas, coloridas, comendo o espaço das recentes, que andavam cada vez mais capengas, pobres e desproporcionalmente esquecíveis.
Por isso, a decisão de falarmos sobre mamãe, apesar de me assombrar, me parecia imensamente necessária. Era preciso agir, qual uma minuciosa atendente do setor de patrimônio, catalogando os passados e dando-lhes nome, justificativa e vez, enquanto ainda houvesse tempo de resgatar uma história que não me havia sido contada inteiramente e que, justamente por isso, me era tão cara e tão preciosa.
Mas não precisávamos ir em ordem cronológica. Era óbvio que nossa missão era a de escrever as pastas em ordem afetiva; ora, o coração, quando encontra uma ponta de novelo, vai puxando aquilo ali, até que esfiapa tudo e a coisa se esgota poeticamente, sem a necessidade de saber qual novelo vai primeiro: eles se escolhem mutuamente.
Ah, pois.
Uma história por dia e nosso compilado iria se tranformando numa pilha de nomes de gentes, lugares, cheiros e músicas. Uma memória de cada vez e a morte jamais nos alcançaria: finalmente descobrimos um jeito de sermos eternas...


A casa em chamas

As roupas estavam num cesto, à espera da máquina. 
Pelo chão, caixas e mais caixas de livros se revezavam, escondendo aranhas, poeira e cartões antigos que pendiam das páginas. 
A cabeça da mãe estava doendo. De exaustão, de preocupação e sonho. 
Aquela casa seria a derradeira. Aquela, sim, tinha de funcionar. Mas estava longe de dar certo.
Ontem, quando chegamos, sob um temporal imenso, descobrimos as goteiras crônicas. Algumas sobre a mesa de estudos da filha mais velha, destruindo um pouco dos materiais amadeirados com o qual ela foi construída. Que baque. Que estresse. Pegue as toalhas de um lado, enxugue de outro, mantendo sempre um pano de segurança caso a água desça pior à noite. 
O marido, meio à tempestade, subiu no telhado para remediar a fresta. Conseguiu, em parte: funcionaria bem daquele jeito mais uns dias, mas nada que fosse definitivo. Havia a necessidade de reparos maiores, mais sérios e, principalmente, mais definitivos. 
A cozinha também tinha pingueiras, disfarçadas pelo forro plástico, que tinha uma caída íngreme até a ponta da porta, onde se acumulou a água. Menos mal. Dava para sobreviver assim, com os eletrodomésticos secos, pelo menos. 
O  quarto do casal estava molhado também, mas não era água do teto: ela escorria da fresta da soleira da porta da varanda, empurrada pelos ventos que entravam encanados e sorrateiros em todos os rasgos, mesmo que microscópicos. 
A água tinha essa qualidade de encharcar em tudo que era canto, aumentando a alegria da natureza (que tinha acabado de sair de uma estação de secura extrema), mas diminuindo o conforto dos bichos que não precisavam dela o tempo todo. 
Fazer o quê. 
A água só vinha tornar mais urgente as coisas e tirar o foco das outras que estavam incomodando antes: as sujeiras, as coisas empilhadas, os excessos de livros velhos, de bolsas, de penduricalhos e bibelôs que vieram da casa antiga.
A mãe não tinha onde guardar nada e começou a se desfazer das suas coisas, sem muita vontade ou diligência. 
Logo ela, que guardava tudo. Que tinha cartas e mais cartas desde a infância. Que carregava um exemplar de jornal do Estado de Minas da época da segunda guerra mundial. 
Para onde iriam essas coisas? O que sobraria dela, caso se desfizesse dessas coisas? 
Teria de viver austera? Teria de viver agora? Não seria mais a somatória de seus pertences... 
O que sobraria para que ela pudesse ser, novamente, alguma coisa?

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

memento moris

No vaso as flores pendem
Quase vivas
Agoniadas, belas
Incisivas

O peixe
Em seu aquário
Como as flores
Gaiola d'água
Azul
Marés perdidas

E a vida
Que desprende do que é vivo 
E arranca o sorriso
E aleija a carne
E tira do momento aquele brilho
E apaga da fogueira o que se arde

Leva o peixe, as flores
Leva as tardes
Encarde a mesa, mofa os combinados
Permite as teias, a poeira, os maus odores
Caduca os cães
E emudece os moradores